Alunos da rede pública de PE relatam dificuldades com aulas on-line, falta de estrutura e de acompanhamento na pandemia

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Foto: Reprodução/WhatsApp

As escolas de Pernambuco foram fechadas desde 18 de março, devido à pandemia do novo coronavírus. As aulas na rede pública estadual foram substituídas por modalidades a distância, como as aulas transmitidas pela TV e pela internet, mas nem todos conseguem acompanhar. No Recife, o relato é de distribuição de livros na rede municipal, mas sem orientação próxima. Em todo o país, estudantes, pais e professores relatam “apagão” na educação.

Kauã de Almeida, 16 anos, mora em São José da Coroa Grande, no Litoral Sul de Pernambuco, e frequenta Escola de Referência em Ensino Médio Professor Carlos José Dias da Silva, da rede estadual de ensino. No 2º ano do ensino médio, ele viu a rotina de estudos mudar depois da suspensão de aulas e afetar outros alunos, além dele.

“No começo das aulas, por exemplo, uma colega minha estava sem celular, aí a gestora pôs a mãe dela nos grupos de WhatsApp para que ela não ficasse sem o conteúdo. É difícil para quem não tem condições adequadas”, afirmou.


Para Kauã, as aulas virtuais, embora não sejam um formato ideal de ensino, têm suprido uma demanda mínima de aprendizagem. Diariamente, segundo ele, são cerca de cinco horas dedicadas aos estudos.

“Tenho que estudar muito, porque quero tentar o vestibular para medicina. Se não passar, vou fazer um técnico em enfermagem para começar a atuar na área e, em seguida, fazer uma faculdade. Minha mãe é enfermeira e, aqui em casa, sempre quis fazer o que ela faz. Acho muito bonito e, agora, ela está na linha de frente, combatendo a pandemia”, disse o estudante.

A escola de Kauã é uma das 1.060 unidades geridas pelo governo de Pernambuco. Só na rede estadual, a suspensão das aulas impacta, ao menos, 580 mil estudantes, sem contar os alunos das redes municipais e da rede privada, também afetados pela decisão.

Sem estrutura para promover, de uma hora para a outra, a modalidade de ensino a distância, já que essa metodologia demanda uma estrutura específica e só é permitida pela legislação brasileira em 30% da carga horária do ensino médio, o governo optou por transmitir, na rede aberta de televisão e pela internet, aulas para os alunos do ensino médio e para os anos finais do ensino fundamental.

O conteúdo é transmitido ao vivo para o ensino médio e para o 9º ano do ensino fundamental de segunda a sexta-feira. Há, também, reprises em horários alternativos. Para os estudantes do 6º ao 8º ano do ensino fundamental, as aulas são gravadas e disponibilizadas na internet, todas as manhãs.

“Na minha escola, temos as aulas pela televisão e pela internet e a gestora, todo dia, nos avisa, por WhatsApp, para assistir o vídeo. A gestão criou um grupo para cada sala, com os professores, e outro com os pais, para que eles puxem um pouco mais dos filhos. No meu grupo, os professores também usam o Google Classroom para passar atividades e testes para compor a nota do trimestre. Quando tem conteúdo novo, eles avisam por mensagem”, disse o jovem.

Segundo o governo, esse tipo de ensino não tem por objetivo substituir as aulas presenciais, mas pode ser uma forma de agilizar a reposição do conteúdo depois da pandemia. A forma como isso vai acontecer ainda não foi definida.

Quase todos os recursos disponibilizados pelo governo do estado são virtuais, transmitidos pela televisão ou pela internet. Por isso, a situação não é a mesma para quem não tem acesso aos recursos tecnológicos necessários para assistir às aulas. Nesses casos, segundo a Secretaria de Educação e Esportes, fascículos com o conteúdo transmitido são produzidos para esses alunos.

A rede wi-fi das escolas, segundo o governo, também pode ser disponibilizada para que responsáveis pelos estudantes que não têm internet façam download das aulas. Entretanto, pelo menos nas cinco cidades em quarentena no Grande Recife, onde só é possível sair de casa para exercer atividades essenciais, isso não seria possível, ao menos, até o dia 31 de maio.

“Até agora, a maioria dos meus colegas de turma está participando, mas eu sei que isso não é a realidade de todo mundo. Todo fim de semana, se houver alguém faltando, a gestora pergunta o porquê e vai atrás dos pais para entender”, contou.